quinta-feira, 10 de julho de 2008
terça-feira, 20 de maio de 2008
A Cidade de Deus
“Assim como na Cítara, nas flautas, no canto e nas próprias vozes se deve guardar certa consonância de sons diferentes, sob pena de a mudança ou a discordância ferirem ouvidos educados, e tal consonância graças a combinação dos mais dessemelhantes sons, se torna concorde e congruente, assim também igual tonalidade na ordem política admitida entre as Classes alta, média e baixa suscitava o congraçamento dos cidadãos. E aquilo que no canto os músicos chamam harmonia era na cidade a concórdia, o mais suave e estreito vínculo de coexistência em toda a república, que sem justiça, não pode em absoluto subsistir.”
Santo Agostinho, A cidade de Deus
O Plano Tecnológico Nacional, Cultura e Inclusão
José Carlos Zorrinho o coordenador do Plano Tecnológico falando sobre o tema Sociedade de Informação e Redes Competitivas na Faculdade de Letras na Universidade de Lisboa em 19 de Maio revelou dois aspectos importantes e menos óbvios do Plano, a saber,
1. Que os aspectos da justiça social e da distribuição da riqueza não fazem parte das preocupações do Plano.
2. O sector da Cultura e das chamadas Industrias Culturais não foi considerado devido à sua incipiência e fragmentação.
Começo pelo segundo aspecto. José Carlos Zorrinho apresenta o Plano Tecnológico como uma narrativa assente na natureza de ser português. Esta aproximação é evidentemente uma inovação relativamente a uma visão tecnocrática de definição de grandes objectivos estratégicos para o país. Se não pusermos em causa se o governo viu bem os elementos relevantes da nossa identidade ou se são lugares comuns que pelo contrário a obscurecem, teremos de louvar que seja esse o ponto de partida. Mas se o Plano Tecnológico se assume como uma narrativa importa saber qual a legitimidade do narrador.
A identidade duma comunidade está assente na sua memória e naquilo que, da sua história, essa comunidade destaca como relevante: a narrativa sobre o seu passado. Mas a identidade é sobretudo presente e forja-se na alteridade: uma narrativa sobre nós próprios em relação ao outro ao que nos diferencia. A terceira componente da identidade prende-se com o futuro que é também a dimensão da promessa e do compromisso: uma narrativa mobilizadora sobre as possibilidades duma comunidade no futuro.
Quando se assume o Plano Tecnológico como narrativa o ênfase está naturalmente no futuro mas as outras duas componentes de narrativa de presente e passado estão subjacentes. A eficácia e mesmo a fecundidade duma narrativa mede-se pela sua capacidade de mobilização e esta por sua vez depende da maneira como nos sentimos "representados" na narrativa.
A eficácia do narrador do Plano Tecnológico, a capacidade de mobilização do governo para os objectivos e desafios nele contidos está dependente da forma como os portugueses se vêm representados na narrativa. Dependem de o plano ter sido feito "de baixo para cima" ou "de cima para baixo".
António Ferro, Director do Secretariado Nacional da Propaganda mais tarde Secretariado Nacional da Informação (SNI) de Salazar foi responsável pela maior revisão histórica portuguesa do sec XX. O revisionismo cultural de Ferro que servia naturalmente as necessidades políticas do regime não caiu com o 25 de Abril e as permanências assumem hoje a forma dos lugares comuns sobre a nossa identidade.
O Plano Tecnológico e a Estratégia de Lisboa é uma oportunidade perdida de rever os lugares comuns e ao mesmo tempo criar uma narrativa mobilizadora.
As desconsideração da dimensão cultural ancorada na fragmentação e incipiência do sector, coisa que justificaria a política oposta, revela uma significativa miopia política relativamente ao impacto do sector cultural na criatividade e inovação nas sociedades contemporâneas o que seria passável se o Plano se assumisse como um exercício tecnocrático de pensar o futuro de Portugal num mundo global. Considerado como uma narrativa a ausência da cultura faz do Plano Tecnológico um produto errado na embalagem certa.
O mesmo espírito parece estar presente na abordagem das questões de justiça social. Como fazer um programa para a competitividade sem abordar as questões da distribuição da riqueza e da inclusão? Num mundo cada vez mais globalizado, numa Europa que envelhece devido a uma taxa de natalidade inferior à da mortalidade, num Portugal que se quer pensar numa escala da Lusofonia a questão da inclusão e do diálogo intercultural é central. O "outro" é uma oportunidade ou uma ameaça, cidadania e negociação de espaço público fazem a diferença. Esta questão política central reconduz-nos às questões culturais de que falámos antes. Diversidade gera criatividade e esta gera uma cultura vibrante e cidades e economias competitivas. O nosso plano tecnológico passando ao lado disto parece deitar fora o bébé com a água do banho.
domingo, 20 de abril de 2008
Sobre a violência e o Movimento Esperança Portugal - MEP
Nos ultimos dias tem-se falado muito de violência. Os cidadãos têm uma expectativa, justa, que a polícia e a justiça sejam capazes de agir para dissuadir a violência e para a reprimir. Consideramos muitas vezes, que o problema da violência é um problema sobre o qual não podemos fazer nada como cidadãos, compete ao governo resolver. Por outro lado existindo nas cidades territórios, guetos, que costumamos associar à criminalidade organizada e à violência, inferimos que se eliminarmos esses guetos eliminamos a causa do mal.
Todas estas observações têm a sua verdade mas enfermam do defeito de ver as coisas à superficie. Tentemos senti-las por dentro.
O desempenho no combate à violência é proporcional à informação que se detêm. Não se pode dissuadir nem reprimir a violência trabalhando às cegas ou duma maneira míope. Os territórios que estão fora da esfera e do espaço público, sejam eles guetos ou condomínios fechados, têm uma cultura de segurança especifíca, ou seja, privada. No caso concreto dos guetos o crime organizado procura através da apropriação dos meios de violência, assegurar as condições para o desenvolvimento do "negócio", o que pressupões a atracção de investimentos e de mão de obra qualificada. A mão de obra das actividades criminosas organizadas é recrutada na área de influência do "negócio" e funciona como sustento de pessoas ou famílias que doutra maneira não conseguem sobreviver. Sobre isto, funciona o efeito de demonstração: a situação de desafogo financeiro e dinheiro fácil conquistada por alguns, serve como exemplo para os outros. O conjunto é servido por uma narrativa "heróica" de exaltação de violência, uma cultura de violência.
No MEP quando falamos numa "mesa com lugar para todos", como elemento fundador da justiça e da procura do bem comum, não ignoramos a existência dessa "outra mesa". A mesa posta pela violência e crime organizados para os excluidos, desesperados e também para o lúmpen. Colocada a nível político "mesa com lugar para todos" é um espaço público, cultural e politico, de diálogo e acção. É a nossa Polis. Por isso diz respeito a todos os cidadãos como espaço público de liberdade. A violência que se sente nos territórios de exclusão e que pouco a pouco vai contaminando toda a cidade, é o resultado do recuo do espaço público. O resultado duma sociedade dual com o "lado de cá" e o "lado de lá" com um muro ao meio que obscurece o outro lado. A responsabilidade desse facto tem de ser assumida por todos e a solução passa por todos.
No MEP quando falamos em "cultura de pontes" falamos de "derrubar o muro", de construir na fronteira as condições do diálogo. Para isto temos de compreender que a cultura de purificação da cidade que pretende excluir o "outro" gera identidades de resistência e estas geram violência, que a injustiça na repartição da riqueza aproxima o "outro" da "outra mesa".
A melhor forma de combater a violência é através da negociação da esfera pública o que pressupõe que todos tenham voz e capacitação para a afirmar. Significa assumir a diferença como um ponto de partida positivo. Significa assumir o diálogo como acção política.
No MEP acreditamos na capacidade das comunidades locais discutirem e decidirem as questões que lhe dizem directamente respeito. Acreditamos na subsidariedade como elemento estruturante duma democracia representativa. As questões da violência que nós vivemos hoje dificilmente se resolverão mudando as leis ou os regulamentos a nível superestrutural. Temos de procurar soluções inteligentes que passem por uma responsabilização de todos. Comunidades fortes e coesas socialmente geram elevados níveis de segurança, a auto-regulação é a melhor forma de regulação em sistemas complexos. A polícia e os tribunais não podem olhar para os territórios de exclusão como "caixas pretas" onde só se vê o que entra e o que sai, mas não se sabe como funciona. Tem de existir proximidade e discernimento. Sem isso corremos o risco de que as medidas que forem tomadas, ainda que animadas de boa vontade, resultem no contrário do que pretendemos: Menos violência, Mais Justiça e Mais Cidadania.
Hannah no Bairro - Preâmbulo para um relatório de mestrado
“... Tenho de escolher o que detesto – ou o sonho, que a minha inteligência odeia, ou a acção, que a minha sensibilidade repugna; ou a acção, para que não nasci, ou o sonho, para que ninguém nasceu.
Resulta que como detesto ambos, não escolho nenhum; mas como hei-de em certa ocasião, ou sonhar ou agir, misturo uma coisa com a outra.”
Bernardo Soares, Livro do Desassossego
Sob o signo de Pessoa, sob o signo do desassosssego, entre o sonho e a acção, “Hannah no Bairro” é o testemunho fragmentário dum projecto de vida que confrontado com os limites da acção social abre o seu estabelecimento no campo da política. É ao mesmo tempo, o lugar de apropriação dos corpus teóricos leccionados no primeiro semestre das aulas de Mestrado de Gestão do Território e Urbanismo no ano lectivo 2007/08.
O “Bairro”, o Bairro da Quinta da Serra, desafia interpretações simplistas. As ciências sociais, espaços de conforto, segregam um determinismo que nos atrai para as leis gerais, para os grandes números e nisso nos afasta da acção. Hannah, Hannah Arendt, a sua teoria política ilumina o nosso caos: porque se todo o sujeito é determinado pela sua condição, a natureza humana é transcendente. Essa transcendência permite-nos, através da acção, mudar a nossa circunstância.
Hannah no Bairro é um território habitado por sujeitos de quem sabemos o nome. Um território de violência e medo, de alegria e dança. Vibrando intensamente entre a morte e a vida. De mães coragem, no labor infinito que as embrutece, que fizeram a sua trincheira no futuro dos seus filhos. Onde resistem. Dos jovens guerreiros, narrativas exaltantes dos feitos e das vitórias, presos. Presos na violência do silêncio. Presos nas nossas prisões, sem julgamento durante o tempo que leva a gerar uma criança no ventre materno. Presos nos códigos de irmandade do gang ou do gueto que os impede de “chibar” mesmo na injustiça da condenação dum inocente. Dos meninos e meninas manifestação exaltante de todas as nossas possibilidades no futuro. Matéria de todo o perdão e de todas as promessas. O riso das crianças, o choro das crianças, os gritos das crianças, o cheiro da primavera no cabelo das crianças, a primeira nota positiva a português, a primeira reunião de pais na escola com o seu nome próprio, todo rodeado de esperança. Os meninos e meninas que animam a vontade de pôr um pé na porta, para que não se feche, para que nenhum fique para trás.
sábado, 19 de abril de 2008
Iluminações - Rimbaud
Bárbaro
Muito depois dos dias e estações, e os seres e os paises,
O pavilhão em carne viva sobre a seda dos mares e das flores árticas; (que não existem)
Repostas velhas fanfarras de heroismo, - e que nos atacam ainda o coração e a cabeça,- longe dos antigos assassinos,-
Oh! O pavilhão em carne viva sobre a seda dos mares e das flores árticas; (que não existem),
Doçuras!
Os braseiros, chovendo nas tempestades de granizo. Doçuras! – Estes fogos na chuva do vento de diamantes lançados pelo coração terrestre eternamente carbonizados para nós. – ó mundo!
(Longe das velhas retiradas e das velhas chamas, que se ouvem que se sentem.)
Os braseiros e as espumas. A musica, viração de vórtices e choque de gelos nos astros.
Ó doçuras, ó mundo, ó musica! Ali, as formas, os suores, as cabeleiras e os olhos, flutuando. E as lágrimas brancas, fervendo, - ó doçuras! – e a voz feminina chegada ao fundo dos vulcões e das grutas árticas…- o pavilhão…
quarta-feira, 9 de janeiro de 2008
Memória e Esfera Pública
A Identidade, seja individual seja colectiva, forja-se em dois movimentos distintos que se alimentam mutúamente. Um dirige-se ao passado e às memórias, outro dirige-se ao mundo e ao encontro com o "outro". As narrativas individuais e colectivas são já um produto da acção da identidade sobre a memória, pesquisa e exaltação de relevâncias que são resultado do exercício da vontade. A formação da identidade exige uma esfera pública em que o encontro com o "outro" revele aquilo que existe de diferente em nós. Quanto mais "mundo" esse encontro tiver, mais essa diferença se poderá afirmar como única. À medida que avançamos no mundo avançamos na nossa narrativa e crescemos na ideia de nós próprios como sujeitos políticos.
Aqui no bairro começámos o ano passado a agir no domínio da memória e das narrativas, nomedamente com as histórias, e fomos pressintindo o que pode acontecer se esse movimento fôr feito com ausência ou deficit de mundo: pouco a pouco emergem vínculos de exaltação da identidade como seita. O "nós contra o mundo" corresponde a uma hipervalorização das nossa identidade relativamente ao "outro", que desconhecemos e não queremos conhecer. Se a hipervalorização for absoluta e o outro tender para zero, as possiblidades de exercício de violência sobre o "outro" são grandes e emerge a narrativa, muito mobilizadora, de que o caminho se faz contra o outro, contra a diferença. Esta "descoberta" fez-nos olhar para fora do bairro.
Faz quase um ano fomos a uma reunião na Costa da Caparica a pretexto dum concurso de fotografia. Eu e quatro jovens pré-adolescentes aqui do bairro. Como a reunão tinha sido marcada a uma hora que não tinha permitido que eles almoçassem depois da saída da escola, após a reunião fomos a um supermercado. Decidi que seriam eles a fazer as compras dei-lhes dinheiro e mantive alguma distância deles para que se sentissem livres de comprar o que mais lhes conviesse.
Estavam pois aparentemente sózinhos no supermercado. A entrada deles foi impressionante porque todo o supermercado pareceu reordenar-se em função deles, dos seguranças às caixas passando pelos olhares de alguns clientes.
Tudo correu muito bem. Eles compraram as coisas certas para o dinheiro que tinham pagaram e sairam. Para tornar o evento perfeito um deles à saida perguntou a uma senhora de certa idade carregada de compras se precisava de ajuda? A resposta veio suave: "Não, meu filho, mas és muito querido."
Aqui no bairro começámos o ano passado a agir no domínio da memória e das narrativas, nomedamente com as histórias, e fomos pressintindo o que pode acontecer se esse movimento fôr feito com ausência ou deficit de mundo: pouco a pouco emergem vínculos de exaltação da identidade como seita. O "nós contra o mundo" corresponde a uma hipervalorização das nossa identidade relativamente ao "outro", que desconhecemos e não queremos conhecer. Se a hipervalorização for absoluta e o outro tender para zero, as possiblidades de exercício de violência sobre o "outro" são grandes e emerge a narrativa, muito mobilizadora, de que o caminho se faz contra o outro, contra a diferença. Esta "descoberta" fez-nos olhar para fora do bairro.
Faz quase um ano fomos a uma reunião na Costa da Caparica a pretexto dum concurso de fotografia. Eu e quatro jovens pré-adolescentes aqui do bairro. Como a reunão tinha sido marcada a uma hora que não tinha permitido que eles almoçassem depois da saída da escola, após a reunião fomos a um supermercado. Decidi que seriam eles a fazer as compras dei-lhes dinheiro e mantive alguma distância deles para que se sentissem livres de comprar o que mais lhes conviesse.
Estavam pois aparentemente sózinhos no supermercado. A entrada deles foi impressionante porque todo o supermercado pareceu reordenar-se em função deles, dos seguranças às caixas passando pelos olhares de alguns clientes.
Tudo correu muito bem. Eles compraram as coisas certas para o dinheiro que tinham pagaram e sairam. Para tornar o evento perfeito um deles à saida perguntou a uma senhora de certa idade carregada de compras se precisava de ajuda? A resposta veio suave: "Não, meu filho, mas és muito querido."
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